A guerra na Síria, iniciada em 2011, não foi um conflito civil convencional, mas uma complexa guerra internacional marcada pelo envolvimento direto e indireto de diversas potências globais e regionais. Durante 13 anos, o regime de Bashar al-Assad enfrentou uma oposição fragmentada, formada por grupos armados que receberam treinamento, financiamento e apoio logístico de países como Qatar, Arábia Saudita, Turquia, Estados Unidos, Israel e membros da União Europeia. Do outro lado, o governo sírio contou com o suporte do Irã, da Rússia e do Hezbollah, formando o chamado Eixo da Resistência.
O Papel das Potências Globais
Segundo o pós-doutor em Ciências Sociais e especialista em Relações Internacionais Marcelo Buzetto, o conflito na Síria foi uma guerra internacional disfarçada de guerra civil. Os grupos rebeldes não surgiram de forma espontânea; foram financiados por governos estrangeiros, cada qual com seus próprios interesses geopolíticos.
Os Estados Unidos, França, Inglaterra e Israel, por exemplo, tinham como objetivo isolar o Irã, que é aliado de Assad e parte crucial do Eixo da Resistência. De acordo com o professor de Relações Internacionais Leonardo Trevisan, enfraquecer o governo sírio era parte de uma estratégia para afastar o Hezbollah da região e facilitar os chamados Acordos de Abraão, que visam a normalização das relações entre países árabes e Israel.
Outro fator relevante foi o projeto de construção de um gasoduto, proposto pelas monarquias árabes sunitas, que atravessaria o território sírio para exportar gás natural para a Europa. Assad, no entanto, rejeitou o plano e optou por uma aliança com Rússia, Irã e China, o que contribuiu para o aumento das tensões e a intensificação do conflito.
A Atuação da Turquia
A Turquia desempenhou um papel de destaque no conflito. O presidente Recep Tayyip Erdogan utilizou a guerra para tentar enfraquecer o movimento curdo, que busca autonomia na região. Ancara teme que o fortalecimento dos curdos sírios possa influenciar os curdos que vivem na Turquia e reforçar a luta do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado uma organização terrorista pelo governo turco.
Para evitar a criação de um Estado curdo independente, a Turquia invadiu partes do norte da Síria e apoiou grupos armados que combatiam tanto o governo de Assad quanto as milícias curdas. Essa intervenção turca foi amplamente criticada por organizações de direitos humanos devido às violações cometidas contra civis curdos e outras minorias.
A Influência de Grupos Extremistas
Outro ponto sensível no conflito sírio foi a ascensão de grupos extremistas islâmicos, como o Hayat Tahrir al-Sham (HTS), uma organização jihadista com origem na Al-Qaeda do Iraque. Para especialistas, o risco de uma nova teocracia islâmica na Síria é real, especialmente após a queda de Assad.
De acordo com Marcelo Buzetto, a maioria dos grupos opositores segue a ideologia wahabista, uma corrente ultraconservadora do Islã, que tem como berço a Arábia Saudita. Essa doutrina, segundo Buzetto, é utilizada para justificar práticas autoritárias e violações de direitos humanos, incluindo a discriminação contra mulheres e minorias religiosas.
Casos de tortura, prisões arbitrárias e execuções sumárias por parte dos grupos rebeldes foram denunciados por relatórios da Comissão Internacional Independente de Investigação da Síria, ligada à ONU. Vídeos de decapitações realizados pelo Estado Islâmico (EI) e outras facções terroristas circularam amplamente nas redes sociais, criando um ambiente de medo e incerteza para a população síria.
O Papel do Eixo da Resistência
De forma contrária aos interesses ocidentais, o governo de Bashar al-Assad foi apoiado por uma aliança formada por Rússia, Irã e o Hezbollah libanês. Esse grupo, conhecido como Eixo da Resistência, se opõe à hegemonia dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio.
A Rússia, em particular, desempenhou um papel crucial ao fornecer apoio militar direto ao governo sírio. A presença de forças russas garantiu a permanência de Assad no poder e reverteu o controle de regiões estratégicas que haviam sido ocupadas por grupos rebeldes e jihadistas. O apoio russo, motivado por interesses econômicos e geopolíticos, incluiu o uso de bases militares e o controle de rotas de petróleo e gás no Mediterrâneo.
Para o Irã, a permanência de Assad no poder é essencial para preservar o Eixo da Resistência e manter uma conexão estratégica com o Hezbollah, que tem grande influência no Líbano. Além disso, o Irã vê a Síria como uma extensão de sua influência regional, o que justifica o envio de conselheiros militares e o financiamento de milícias xiitas para apoiar o governo sírio.
Conclusão
A guerra na Síria não foi apenas uma disputa interna, mas uma verdadeira guerra internacional de interesses geopolíticos. Potências ocidentais, monarquias árabes e Israel trabalharam para enfraquecer o regime de Assad, enquanto Rússia, Irã e o Hezbollah garantiram sua permanência no poder.
Além das implicações geopolíticas, a guerra teve um impacto devastador na população síria. Milhões de pessoas foram deslocadas de suas casas, e cidades inteiras foram destruídas. A perspectiva de um futuro pacífico e estável para a Síria ainda é incerta, especialmente diante do risco de que grupos extremistas islâmicos assumam o controle de regiões estratégicas.
A geopolítica internacional, as rivalidades religiosas e as disputas por recursos naturais, como o gás, fizeram da Síria o campo de batalha de uma das guerras mais destrutivas e complexas do século XXI. Esse conflito mostrou que, mais do que a luta por democracia ou liberdade, interesses econômicos, geopolíticos e religiosos movem as peças no tabuleiro do Oriente Médio.










