Ofensiva relâmpago de grupos rebeldes liderados por islamistas põe fim a mais de meio século de governo da dinastia Assad
Multidões de sírios tomaram as ruas de Damasco neste domingo (8) para comemorar a queda do presidente Bashar al-Assad, deposto após uma ofensiva relâmpago liderada pelo grupo islamista Hayat Tahrir al-Sham (HTS). O movimento rebelde conseguiu tomar a capital síria, encerrando mais de 50 anos de controle da dinastia Assad, iniciada em 1971 com Hafez al-Assad.
A renúncia de Bashar al-Assad, que governou o país com mão de ferro desde 2000, foi confirmada por autoridades russas. De acordo com a TASS e a Ria Novosti, a Rússia, principal aliada do regime, concedeu asilo ao ex-presidente.
Residência de Assad é saqueada e palácio presidencial incendiado
Logo após a notícia da renúncia, dezenas de pessoas invadiram a residência luxuosa de Assad, localizada na capital Damasco. O imóvel foi saqueado por populares e rebeldes. A sala de recepção do palácio presidencial, situado em outro bairro da cidade, também foi incendiada, assim como edifícios de agências de segurança, segundo informações de repórteres da AFP e do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), organização que monitora o conflito a partir do Reino Unido.
“A Síria é nossa!”
Abu Mohamed al-Jolani, líder da coalizão rebelde, chegou a Damasco neste domingo e discursou na icônica mesquita Umayyad. Imagens que circulam na mídia mostram al-Jolani sendo recebido por uma multidão que gritava “Allah Akbar” (Deus é grande) e “A Síria é nossa, não pertence à família Assad!”.
Vídeos divulgados pela AFPTV mostram manifestantes comemorando nas ruas, pisoteando estátuas de Hafez al-Assad. Na Praça Umayyad, fogos e tiros para o alto simbolizaram a celebração popular. Soldados do exército sírio foram vistos deixando seus uniformes nas ruas ao abandonar seus postos.
Ofensiva relâmpago e toque de recolher
A queda de Assad foi o desfecho de uma ofensiva relâmpago iniciada em 27 de novembro, a partir da província de Idlib, no noroeste da Síria. Segundo o OSDH, pelo menos 910 pessoas foram mortas durante os combates, incluindo 138 civis.
Após assumir o controle de Damasco, o grupo rebelde HTS decretou toque de recolher das 16h (10h no horário de Brasília) de domingo até as 5h de segunda-feira (23h de domingo no horário de Brasília).
Fim de uma era e incertezas no futuro da Síria
A queda do governo de Bashar al-Assad marca o fim de uma era na Síria, mas abre um período de incerteza para o país, que desde 2011 enfrenta uma guerra civil que deixou quase 500 mil mortos. O conflito dividiu o território em zonas controladas por diferentes forças beligerantes apoiadas por potências estrangeiras, incluindo Rússia, Irã e Turquia.
O governo rebelde anunciou a libertação de prisioneiros que, segundo eles, estavam “detidos injustamente” pelo regime. No entanto, ainda não está claro como será a nova configuração de poder no país e quais serão as relações com as potências internacionais.
Quem é Bashar al-Assad?
Bashar al-Assad assumiu a presidência da Síria em 2000, após a morte de seu pai, Hafez al-Assad, que governou o país por 29 anos. Médico oftalmologista de formação, Bashar não era inicialmente o herdeiro político designado, mas assumiu o posto após a morte de seu irmão mais velho, Bassel.
Durante seu governo, Assad enfrentou protestos populares em 2011, que se transformaram em uma guerra civil. O regime foi acusado de crimes contra a humanidade, incluindo o uso de armas químicas contra civis. Apesar de perder parte do controle territorial para grupos rebeldes e jihadistas, Assad manteve o poder graças ao apoio militar da Rússia e do Irã.
Agora, com sua renúncia e exílio na Rússia, a Síria se encontra em um momento de transição. O país, devastado por mais de uma década de guerra, enfrenta o desafio de encontrar estabilidade política e reconstruir suas instituições.











