Os novos pedidos de recuperação judicial envolvendo grandes nomes do varejo brasileiro, como Casas Bahia e Marabraz, voltaram a colocar o mercado financeiro em estado de atenção. A principal apreensão de analistas e investidores é a possibilidade de um efeito dominó que resulte no encolhimento das linhas de financiamento voltadas ao comércio varejista.
O clima atual traz à memória o solavanco sofrido pelo setor no início de 2023, desencadeado pelo escândalo contábil da Americanas. Na ocasião, a reação das instituições financeiras foi imediata: para se protegerem de calotes em série, bancos e fundos de investimento fecharam as torneiras, cortando o crédito não apenas da empresa envolvida, mas também de fornecedores e concorrentes do segmento.
Causas distintas, riscos semelhantes
Embora o receio de retração de crédito seja o mesmo, a origem das dificuldades atuais difere do caso Americanas:
-
Americanas (2023): Crise deflagrada por inconsistências contábeis e operações de risco sacado omissas nos balanços.
-
Casas Bahia e Marabraz (Atual): Impacto de fatores macroeconômicos, sobretudo a manutenção da taxa de juros em patamares elevados, que castiga modelos de negócios altamente dependentes do crediário e das vendas a prazo.
Instituições financeiras lideram lista de credores
A exposição dos bancos à dívida das varejistas explica o forte movimento de aversão ao risco. Nos documentos protocolados pela Casas Bahia junto à Justiça, as instituições financeiras aparecem como as maiores detentoras de seus débitos:
| Credor | Valor a receber |
| Banco Digio | R$ 2,6 bilhões |
| Banco do Brasil | R$ 2,4 bilhões |
| Bradesco | R$ 1,5 bilhão |
| Riza Gestora | R$ 803 milhões |
| Redasset Gestão | R$ 585 milhões |
O fantasma da seca de crédito de 2023
O histórico recente justifica a cautela do mercado. Dados do Banco Central revelam que, nos seis meses posteriores à eclosão do caso Americanas em 2023, o volume total de crédito concedido ao comércio varejista despencou R$ 12 bilhões — uma redução de 5% na exposição bancária ao segmento.
Esse movimento de retração foi exclusivo do varejo. Enquanto o setor comercial enfrentava forte restrição, outros segmentos da economia mantiveram a trajetória de captação: a construção civil registrou expansão de 8,4% no crédito (injeção de R$ 8,7 bilhões), o setor de serviços às famílias apresentou leve alta de 0,4%, e o segmento de transportes permaneceu estável.
Caso os bancos adotem novamente uma postura defensiva diante do cenário atual, empresas de médio e pequeno porte do comércio poderão enfrentar dias difíceis para financiar suas operações e renegociar dívidas nos próximos meses.











